O GLOBO (RJ) • REVISTA O GLOBO • 29/11/2009
Navegar é preciso
Internet se dissemina nas favelas do Rio, que ganham rede wi-fi gratuita

Desde julho, Rafaela Gonçalves, de 22 anos, percorre as ruas do Dona Marta de cima abaixo a fim de identificar, celular em punho, os principais pontos da favela para postar no Wikimapa, projeto digital que mapeia cinco comunidades do Rio. Ela envia as entradas do aparelho mesmo e depois edita os textos em seu computador, ambos ligados à rede de internet sem fio gratuita que foi instalada na comunidade em março.

— Eu não tinha computador e gastava R$ 2 por dia na lan house. Agora o projeto me deu um e não pago pela internet — comemora.

O Dona Marta e a Cidade de Deus foram as primeiras favelas cariocas contempladas pelo Rio Estado Digital — programa da Secretaria estadual de Ciência e Tecnologia que, até 2010, pretende ver 70% do estado “iluminado digitalmente”, como diz o jargão tecnológico. Para isso, caminha a passos largos: na quarta-feira, o sistema será inaugurado em seis municípios da Baixada e, no dia 16, na Avenida Brasil, no trecho que vai da Zona Portuária a Santa Cruz. No início de 2010, Rocinha e Pavão Pavãozinho também entram no jogo, fazendo com que a rede alcance quase três milhões de pessoas.

Até o fim de 2010, a meta da Secretaria estadual de Ciência e Tecnologia é oferecer internet grauita a todas as comunidades carentes do Rio.

— Nossa estimativa é investir R$ 45 milhões para cobrir o estado todo. Depois, o custeio será de apenas R$ 50 mil por mês — diz o secretário Alexandre Cardoso, que considera a internet “o grande instrumento de democratização do conhecimento”.

O projeto não é só para populações carentes — tanto que começou pela orla de Copacabana.

Mas o foco inicial é nas favelas, onde o uso da internet é disseminado, porém irregular — muitas vezes com acesso via “gatonet”. Era assim no Dona Marta: um pagante de banda larga dividia a conexão entre os vizinhos e cada um “contribuía” com cerca de R$ 30 mensais. Agora, há internet para todos, e de graça.

Não que ligar o sinal tenha resolvido tudo num passe de mágica. Desde a inauguração, a comunidade vem se adaptando ao sistema: muitos não sabiam como conectar os computadores, nem qual adaptador comprar para acessar a rede (os aparelhos sem wi-fi precisam de adaptadores que custam entre R$ 39 e R$ 200, e os modelos mais baratos nem sempre dão conta do recado), e algumas das 16 antenas instaladas na área precisaram ser reposicionadas.

O processo de ajustes levou à desconfiança de alguns moradores, que vem sendo vencida com o trabalho dos monitores, a postos para solucionar pendengas. Uma delas é Elana Paulino, de 27 anos.

Moradora da favela, ela foi contratada pela Mibra (empresa que faz a manutenção do sistema) para orientar os internautas — e agora se vê exercitando a pedagogia.

— Muitos dizem que a internet não funciona sem nem testar. Então faço uma campanha para conscientizar as pessoas de que isso é um benefício que conquistamos, que elas devem aproveitar — argumenta a monitora.

Até hoje Elana percorre o morro duas vezes por semana com o laptop para ver se a conexão está boa em cada ponto. Quem acha que a comunidade é analfabeta em informática não sabe de nada, diz ela. E de fato o mapeamento prévio à instalação da rede sem fio mostrou que os dez mil moradores tinham 1.600 computadores — ou seja, 45% das casas eram computadorizadas (mas nem todas ligadas à internet). Agora, cada vez mais estão aderindo à rede sem fio, mas ainda há capacidade de sobra. Segundo Marco Grivet, do Centro de Estudos em Telecomunicações da PUC, responsável pela instalação no Dona Marta, o máximo de acessos simultâneos foi de 800, mas a rede tem capacidade para dois mil.

Ele ressalta a importância de oferecer o acesso às favelas: — Hoje, para conseguir um emprego em qualquer empresa, você tem que entrar na internet e fazer a aplicação no site. Você precisa de internet para tudo — lembra.

O DJ e professor de dança Thiago Firmino, de 28 anos, foi um dos que ficaram frustrados no início, achando que o wi-fi era pura vitrine. Não conseguia captar o sinal de sua casa, mas brigou e acabou com uma antena instalada bem na sua laje.

Agora aproveita o sistema para trabalhar e resolver a vida.

— Não posso ficar sem internet.

Uso para baixar músicas, falar com amigos e pagar contas — diz ele, mediador da comunidade do Santa Marta no Orkut, com 1.300 integrantes.

Cinthya Game, diretora de operações do Comitê para Democratização da Informática (CDI), saúda o wi-fi gratuito nos morros, mas diz que é preciso ir muito além para promover a inclusão digital.

— É um passo inicial, uma ideia muito boa. Mas é essencial criar uma estratégia para que o uso da tecnologia não seja excludente, que o máximo de pessoas possa usar a rede e aprenda a usá-la bem — opina ela, propondo parcerias com organizações como o próprio CDI, que atua em comunidades buscando justamente fazer com que a internet vire um instrumento de transformação social. — Não se trata somente de entregar o serviço, mas de dar sentido a ele com ações simples, mas que impactem a comunidade e a vida das pessoas.

O acesso à internet nas favelas continua passando obrigatoriamente pelas lan houses.

Elas cobram entre R$ 1 e R$ 2 por hora e têm papel fundamental na vida tanto digital quanto social dos moradores, diz a antropóloga Carla Barros, pesquisadora do Centro de Altos Estudos em Propaganda e Marketing da ESPM. Desde o ano passado, ela estuda o uso de lan houses em Vila Canoas, em São Conrado, e no Dona Marta. E constatou que, hoje, elas cumprem papéis diversos nas favelas: são quase um clube local para a garotada, virando área de lazer onde há tanta carência delas; são um lugar de iniciação digital, onde novatos dão suas primeiras navegadas guiados por iniciados; são um centro de acesso a serviços online para quem nem sabe usálos mas é salvo pelo atendente, figura que “intermedeia ações de cidadania para pessoas que nem tocam no computador”: — Além de organizações como o CDI, quem está fazendo a inclusão digital, efetivamente, são as lan houses, e não o governo.

São ambientes que reúnem várias pessoas em torno de um computador, com forte potencial de educação.

Carla viu crianças que ainda nem foram alfabetizadas aprendendo a entrar no Orkut: — Elas estão iniciando ali a alfabetização digital.

Com o wi-fi gratuito, poderiase pensar que as lan houses ficariam às moscas, mas isso não ocorre no Dona Marta nem na Cidade de Deus. Não só pelo lado social da coisa, mas porque, afinal, nem todos têm computador.

Além disso, na CDD, moradores ainda estão se entendendo com a rede que foi inaugurada em maio. Muitos deixam reclamações no Portal Comunitário da Cidade de Deus, dizendo ter comprado adaptadores e não encontrado sinal. Muitas dessas queixas foram parar nos ouvidos de Renato Figueiredo, dono de uma loja de informática que vende os tais adaptadores.

— Não foi uma nem duas vezes. O pessoal acha que eu tenho que fornecer o sinal também — irrita-se.

O chaveiro Leandro Costa não tem do que reclamar. Ele trabalha de frente para a praça central da CDD e agora tem internet todo dia, que usa para mandar emails e encomendar chaves e cadeados. Já o ator Leandro Firmino (o Zé Pequeno de “Cidade de Deus”) investiu num adaptador e conta que o sinal funcionou nos primeiros dias, mas depois morreu.

— Acho a proposta maravilhosa, mas por enquanto está mal executada — opina.

Firmino guardou o adaptador na gaveta e voltou a usar a lan house vizinha. Responsável pela instalação do sistema na CDD, Flavio Hasselmann, do Centro de Estudos em Telecomunicações da PUC, defende que se faça o contrário: quem tiver dificuldades deve comunicar o problema aos monitores da Associação de Moradores ou à Faetec.

— O monitor vai ao local ver o que está acontecendo. Pode ser algo pontual, ou pode ser preciso reposicionar o módulo da antena. Esse retorno é importante para a gente — diz.

Segundo Hasselmann, o mapeamento de tráfego no último trimestre traça um perfil aproximado dos navegantes, apontando para as três maiores fatias na divisão de bytes: 11% foram consumidos em troca de emails, 14% em navegação genérica na web e 48% em sites peer-to-peer (P2P), leia-se sites de compartilhamento de arquivos de música, vídeo etc.




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