O GLOBO (RJ) • ECONOMIA • 21/12/2009
2009, o ano que foi das construtoras na Bolsa
Ganho do Ibovespa no período, em torno de 80%, só não foi maior do que o de 2007. Consumo interno é a aposta para 2010

ALEXANDRE ESPÍRITO SANTO: Bolsa deve ganhar volatilidade em período eleitoral, momento em que será indicado

ficar com ações menos voláteis, como as das teles

Felipe Frisch

O ano de 2009 se aproxima do fim e é hora de fazer as contas. Quem olha para trás e ignora o que aconteceu antes de janeiro nem acredita que vivemos "a pior crise desde 1929", como tanto se afirmou. Faltando apenas seis pregões para o investidor estourar o champanhe, o Índice Bovespa (Ibovespa), principal indicador da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), deve encerrar o ano com alta de cerca de 80% (77,88% até sexta-feira). A valorização é comparável apenas à de 2003, quando a Bolsa subiu 97,34%.

No cenário atual, o grande vencedor foi o setor da construção civil, cujas ações sobem, em média, 204%, até dia 14. Foi justamente o segmento da economia que mais apanhou no mercado de ações no ano passado, devido à sua dependência do crédito e à perspectiva de que as torneiras dos bancos secariam. Em seguida, vem o segmento de shoppings, fortemente correlacionado e cujas ações já sobem 196% no ano prestes a acabar.

Chama atenção ainda o desempenho das ações das mineradoras, com alta média de 178%. O setor é o de maior peso na Bolsa brasileira (devido ao peso das ações da Vale), com o de petróleo (com a Petrobras), ambos sendo responsáveis por cerca de 18% do Ibovespa cada. É importante frisar ainda que nenhum segmento ficou negativo no ano na Bolsa, descaracterizando de vez o cenário de crise. Na lanterninha, ficou o setor de alimentos e bebidas, com alta de 49,39%.

Analistas projetam Ibovespa a 85 mil pontos em 2010

Não à toa, agora o setor está entre os mais recomendados pelos analistas para 2010, com outros segmentos ligados ao mercado interno, diante das apostas em um crescimento do país de 5%. A chefe de análise da Fator Corretora, Lika Takahashi, destaca o segmento e ainda: bancos, empresas de varejo, shoppings, telefonia e os novatos na Bolsa: saúde e educação.

- Com o crescimento e ascensão da classe média, as pessoas vão procurar mais qualidade de vida, beber cervejas de melhor qualidade e comprar comidas congeladas, por exemplo. As ações que se beneficiam deste tipo de uptrading (consumo de produtos de maior valor agregado) são interessantes investimentos - diz Lika, que a projeta um Ibovespa a 80 mil pontos no fim do próximo ano.

A projeção significa uma valorização de cerca de 20% em relação ao fechamento do índice na última sexta-feira, mas ainda é inferior à média dos demais analistas do mercado, que falam em um Ibovespa a 85 mil pontos no mês de dezembro do próximo ano. Outro fator que ela acredita estará na ordem do dia dos investidores serão as eleições presidenciais, que podem fornecer alguma volatilidade ao mercado de ações, mas nada comparável a 2002, quando o presidente Lula foi eleito.

- Não deve ser nada forte como em 2002, mas pode dar ruído. Vai ser o fim da era Lula, e ele e Fernando Henrique Cardoso vão estar fora do centro do poder - diz Lika, para quem, dessa vez, não está clara a preferência política do mercado.

O gerente executivo do Instituto Nacional dos Investidores (INI), Paulo Portinho, diz que uma rentabilidade de 15% na Bolsa (levando o Ibovespa a cerca de 77 mil pontos) em 2010 seria boa. Isso, levando em conta que a taxa básica de juros Selic, que remunera os títulos que compõem os fundos de renda fixa, hoje está em 8,75% ao ano.

- Seria um ótimo resultado já (a Bolsa subir 15%), porque seria a renda fixa mais 50%, dependendo de para onde vá a Selic (o mercado prevê que ela suba a mais de 10,50% em 2010). As pessoas não devem entrar na Bolsa esperando rentabilidade de 80% como este ano - diz Portinho, autor de "O mercado de ações em 25 episódios" (Editora Campus-Elsevier).

O diretor de Relações Internacionais da ESPM e estrategista da Way Investimentos, Alexandre Espírito Santo, questiona a consistência da alta de alguns setores, como os de siderurgia, que, em média, subiram 107%, impulsionados pelo noticiário da China, voltando a comprar matérias-primas com força.

- O meu receio é de que o ano que vem esteja despontando como muito bom e isso não se confirme, assim como 2009 parecia que ia ser horrível e não foi - diz o estrategista, que crê que a recuperação mundial sará em formato de "W", com uma nova queda (que afetará as bolsas) antes de vir a expansão de fato.

Para ele, agravado pelo risco eleitoral, o momento é para comprar ações de setores considerados defensivos, por pagarem bons dividendos (distribuição de lucros) e que, por isso, oscilam menos (para baixo ou para cima), como o elétrico e o de telecomunicações. De fato, ambos acumulam, em média, valorizações de 72,65% e 58%, respectivamente, no ano, abaixo do Ibovespa. Com o otimismo na Bolsa, essas ações foram parcialmente deixadas de lado.


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