O GLOBO (RJ) • GERAL • 18/1/2010
O que impede a Bolsa de bater novo recorde?
Conteudo: Maior parte dos papéis do Ibovespa acumula ganho desde a marca histórica. Vale e Petrobras seguram novas altas
Felipe Frisch
A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) começou o ano ameaçando atingir novos recordes do seu Índice Bovespa (Ibovespa), que teve sua máxima histórica em maio de 2008, aos 73.516 pontos. Na semana passada, o principal indicador da Bolsa chegou a bater 71.068 pontos, apenas 2.500 abaixo do que foi o teto da Bovespa. No entanto, pelo fechamento de sexta-feira, o Ibovespa precisa acumular uma alta de 6,58% para o investidor voltar a comemorar. Apesar desse cenário indefinido, das 63 ações que compõem o Ibovespa, 37, mais da metade, já acumulam altas desde o recorde do índice.
Entre as que já eram negociadas em bolsa em 2008, as ações da Natura subiram 89,29% nestes quase dois anos. Logo em seguida, vêm as do Pão de Açúcar, com rentabilidade de 80,96%, e as da AmBev, com ganhos de 55,29%. O que há de comum entre elas o investidor levemente antenado já percebeu: são diretamente ligadas ao consumo interno.
E o cardápio de setores cujos papéis continuam batendo recordes na Bovespa, ignorando seu principal indicador, não acaba aí. Outros destaques são construção civil, energia elétrica, telefonia, as aéreas e os bancos. Os papéis do hoje Itaú Unibanco, por exemplo, sobem 14,70% desde que a Bolsa bateu seu teto, tendo chegado no segundo pregão do ano a R$ 40,38, maior cotação de sua história.
Indefinição sobre pré-sal empaca ações da Petrobras Em contrapartida, as outras 26 ações representam uma minoria ruidosa, que impede o Ibovespa de alçar novos voos. Juntas, elas representam 62,54% do Ibovespa, que é ponderado pelo volume que cada ação negocia na Bovespa.
E é desse lado da balança que estão as ações das produtoras de commodities (matériasprimas, como petróleo, minério de ferro e aço, que se desvalorizaram significativamente no mercado internacional desde então) e somam 47,55% no Ibovespa.
Entre elas, as ações preferenciais (PN, sem direito a voto) da Petrobras, com peso de 12% no índice, caem 25,92% desde o último recorde do Ibovespa.
Já as da Vale perdem 21,25%.
— As ações com maior peso andaram menos, fica nítida a concentração nessa situação.
Corremos o risco de ter novos recordes do Ibovespa e essas ações estarem atrasadas ainda, principalmente as da Petrobras — avalia Álvaro Bandeira, economistachefe da Ágora.
Segundo ele, mesmo algumas ações desconectadas das matériasprimas, como as da B2W, dona dos sites Submarino e Americanas.com, e da Embraer, tiveram desempenho pior do que o Ibovespa desde o recorde do índice — caem 36,98% e 40,70%, respectivamente — devido às restrições do crédito depois de maio de 2008.
E o que tem feito principalmente as ações da Petrobras serem um peso quase morto dentro do Ibovespa? A resposta unânime dos analistas é: a indefinição sobre a capitalização que a empresa anunciou no ano passado para financiar as operações na camada pré-sal. A estatal ainda não definiu o tamanho dessa operação e, portanto, em quanto os atuais acionistas terão suas participações diluídas no capital da companhia.
— Essa capitalização da Petrobras deve ser avaliada com cuidado. Se as ações de Vale e Petrobras acompanhassem o desempenho das de segunda linha (menos negociadas, como as de consumo, alimentos e bebidas), o recorde já estava batido — diz o diretor do curso de Relações Internacionais da ESPM e estrategista da Way Investimentos, Alexandre Espírito Santo.
Ibovespa tende a perder concentração no longo prazo Não é à toa que, desde o recorde do Ibovespa, quase todos os índices setoriais tiveram um desempenho superior, em especial o IEE, das ações das empresas de energia elétrica, que sobe 28,96%. Na sequência, vem o do setor financeiro, com ganho acumulado de 19,23%. Dos 13 índices calculados pelo Ibovespa, apenas quatro tiveram desempenho pior do que o Ibovespa.
O índice do setor industrial, por exemplo, caiu 15,82% e o de sustentabilidade, 14,09%.
O estrategista Alexandre Espírito Santo afirma que, mais importante do que bater recordes, é a tendência da Bolsa no médio e longo prazo: — Uma coisa é bater recorde, outra é manter o mercado em alta. Está muito óbvio que esse ano vai ser de alta, assim como no ano passado estava muito óbvio que o mercado ia cair (e subiu) — diz, lembrando que o investidor deve ter cautela.
O analista-chefe da XP Investimentos, Rossano Oltramari, acredita que as ações das empresas ligadas a matérias-primas podem se recuperar este ano.
— O próprio preço das matériasprimas está segurando essas ações. Elas só vão andar se o mundo crescer — diz o analista.
Com a migração de investidores das ações da Petrobras e da Vale para outros papéis, a tendência é que o Ibovespa se torne menos concentrado ao longo do tempo, avalia o economista da Um Investimentos, Hersz Ferman.
— A bolsa brasileira ainda é vista como uma bolsa de commodities, cujas empresas são gigantescas, grandes não só no índice — diz.