JORNAL DA TARDE (SP) • VARIEDADES • 11/3/2010
Sorte de uns, azar de muitos outros

No script da maior parte dos novelistas, garçonetes, empregadas e garotas de programa costumam ter um espaço que beira a figuração. Mas na novela das 9 da Globo, Viver a Vida, elas integram um time de atores aos poucos que está virando a trama de Manoel Carlos de cabeça para baixo. Taís Araújo, cuja personagem, Helena, deveria ser a mocinha do folhetim, cada vez mais perde espaço para a heroína da superação Luciana (Alinne Moraes). E personagens que só iam dar o ar da graça na telinha – como o argentino Maradona (Mário José Paz) e a prostituta Myrna (Aline Fanju) – agora movimentam a novela, que em março alcançou 38 pontos de média na audiência contra o amargo patamar de 30 pontos no Ibope dos últimos meses.

A mais afetada com essa virada é a mocinha da novela, que, na opinião da dramaturga e professora da universidade de São Paulo (USP) Renata Pallottini se mostrou como uma Helena diferente, por exibir o drama do aborto que cometeu. Mas a personagem não teve tempo de ‘encantar’ o público. “Tudo aconteceu muito rápido na vida dela”, argumenta.

No primeiro capítulo, na calmaria de Búzios, a modelo conheceu o galã Marcos, de José Mayer, e anotou seu telefone. Dias depois se casaram e, num jato particular, voaram para a Europa. Helena garantiu alguns flashes nas passarelas da Jordânia, mas em pouco tempo saiu de foco. “O acidente da Luciana (um ônibus em que ela viajava na Jordânia capotou) parou a novela. Ela passou a ser a protagonista com o assunto de superação”, diz Renata.

O que ocorreu com Taís e Aline foi semelhante à troca de lugares de Márcio Garcia e Rodrigo Lombardi, na antecessora Caminho das Índias, de Glória Perez. O intérprete do dalit Bahuan não agradou e o galanteador Raj virou o protagonista.

Para complicar a trajetória de Taís Araújo, a atriz passou a contracenar com Lilia Cabral, intérprete de Tereza, mãe de Luciana – atriz conhecida por roubar a cena nas novelas de Manoel Carlos. “Antes, a Tereza seria uma espécie de vilã. Mas, com o acidente, caiu no gosto do público. A verdade é que a Lilia tem talento demais e a Taís, de menos”, diz Renata.

Nilson Xavier, autor do Almanaque da Telenovela Brasileira, não vê Taís como foco dos problemas de Viver a Vida. A novela não alavanca, segundo ele, por conta de um elenco de 70 atores. “É tanta gente que tem ator bom fazendo figuração de luxo. É um desperdício. A Dora (Giovanna Antonelli) tinha uma ótima trama que não foi bem explorada. Mas isso já aconteceu em outras novelas do autor. Alguns personagens acabam se esvaindo”, observa.

O trio Betina (Letícia Spiller), Gustavo (Marcello Airoldi) e Malu (Camila Morgado), sempre às voltas com traições, e a fogosa Alice (Maria Luisa Mendonça), que não beija ninguém, já começam a sumir na trama.

O desaparecimento dos ex-namorados de Helena, André (Antonio Firmino) e Afonso (Beto Nasci), reforçam a tese do excesso de elenco. Débora Nascimento passa batido até aos olhos mais atentos. Na trama ela é Roberta, mulher de Afonso. Dona Nôemia (Lolita Rodrigues), mãe de Marcos, e a estudante Raquel (Rafaela Fisher) completam a lista dos “turistas”. Nôemia só aparece em dias de festa e Raquel, quando a amiga Renata (Bárbara Paz) precisa de um ombro amigo.

Mas, se uns estão em baixa, outros aproveitam para desfrutar o horário nobre da Globo. Como a empregada Nice (Roberta Almeida) que dialoga com Tereza, e Soraia (Nanda Costa), que desponta como favorita a vilã de Búzios. Outros nomes pipocam do anonimato, como a prostituta Myrna e Maradona, ambos convidados inicialmente só para uma participação.

Apesar de também ter críticas ao folhetim, Maria Aparecida Baccega, coordenadora de um núcleo de estudos da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), faz um balanço positivo da trama. “Não gostei daquele vaivém de casais. Foi um exagero. Mas a proposta da superação com a criação do blog (Sonhos de Luciana) foi muito boa”, pondera. Para Baccega, núcleos como os de Búzios, o morro onde vive Sandrinha (Aparecida Petrowky), os filhos desconhecidos de Marcos e uma possível recaída de Renata podem dar respaldo a Maneco. “No final ele vai amarrar tudo.”


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