JORNAL BEM PARAN (PR) • EDUCAO • 25/03/2014
Pelo direito de brincar
Livro fala sobre a importncia da brincadeira, diante da presso por conhecimento e do avano da internet. Sheila Pomilho, organizadora da publiucao, d dicas para pais e filgos


Josianne Ritz
O direito ao brincar est previsto no artigo 31 da Conveno Internacional sobre os Direitos da Criana, na Constituio Federal e no Estatuto da Criana e do Adolescente. Em pesquisa realizada pelo International Play Association (IPA) em 2010, envolvendo oito pases em quatro continentes, foram identificadas 115 violaes do direito de brincar pelo mundo, tais como a presso para a aquisio de conhecimento educacional, o crescente papel da mdia eletrnica e a baixa conscincia da importncia do brincar e da recreao. Observando as crianas brincarem, podemos notar que esse ato essencial para a construo das relaes, e que brincar acontece durante toda a vida. muito comum que crianas ao se juntarem, sempre questionam vamos “— Brincar de qu?”. Pensando nisso, o termo foi escolhido para dar nome ao projeto e ao ttulo do livro desenvolvido pela Rede Marista de Solidariedade, por meio do Centro Marista de Defesa da Infncia, na PUCPR, em Curitiba. O lanamento do livro “Brincadiqu? Pelo Direito ao Brincar”, foi realizado no Espao FTD Digital Arena, durante o seminrio “O Direito ao Brincar e as Prticas Ldicas para a Infncia”. A publicao rene artigos com temas que tratam do brincar, a exemplo das diferentes culturas infantis, das mltiplas linguagens, do espaotempo, da educao, dos jogos, brinquedos e brincadeiras e da convivncia familiar e comunitria. O livro trs, ainda, relatos de experincias e apresenta aes e prticas que apoiam e indicam novas possibilidades para efetivao deste direito nos cotidianos das instituies que compem o Sistema de Garantia de Direitos. “ importante fomentar os projetos e polticas pblicas com foco no brincar, a fim de fortalecer e efetivar esse direito para as crianas. Cabe aos adultos, educadores, voluntrios, agentes sociais e de sade, entre outros, facilitar a ao ldica e a promoo desse direito”, enfatiza Sheila Pomilho, analista de assessoramento do Centro Marista de Defesa da Infncia e organizadora do livro. E sobre a necessidade de brincar das crianas, o Bem Paran conversou Sheila. Veja os principais trechos da entrevista: Bem Paran — As crianas esto brincando menos? Sheila Pomilho — Todas as crianas brincam, mesmo com as diferentes mudanas que tem ocorrido em sua dinmica de vida, assim como no espao geogrfico. verdade que o brincar tem sido prejudicado pelas ruas cada vez mais movimentadas de veculos, a diminuio dos espaos pblicos de lazer, a sensao crescente de insegurana, a adultizao precoce, etc. Mesmo assim, a criana sempre vai brincar, indep e n d e n t e - mente de ter um espao ou situao adequados para isso, mesmo que na imaginao. Para que as crianas possam brincar sempre que desejarem e para que seu tempo de Infncia no fique cerceado por questes que poderiam ser cumpridas em outros momentos de sua vida, importante garantir nas polticas pblicas e nos programas voltados para a Infncia, aes que possam efetivar este direito. Isso se faz por meio da construo de brinquedotecas nos municpios e Universidades, parques e praas adequadas e bem conservadas, alm de uma ampliao dentro das diferentes reas da rede de proteo Infncia, aes para incluir e enfrentar a violao desse direito, todas as vezes que ele for negado. BP — Como reverter isso nas escolas? Preparar os professores? Sheila — Na sociedade, ainda existe a ideia de que o brincar na escola deve ser assegurado apenas nos momentos de cio e no como uma prtica de fomento ao desenvolvimento integral da criana,. Os desafios que fragilizam a formao continuada dos educadores devem ser amplamente debatidos, para que este direito possa ser efetivado tambm por educadores. Para isso, devem ser assegurados em sua formao continuada os assuntos que so pertinentes a um desenvolvimento integral das crianas. necessrio, ainda, que se inclua no currculo escolar o direito ao brincar de maneira ampliada e articulada ao projeto pedaggico realizado em cada equipamento. Os gestores so parceiros que podem garantir materiais adequados e em quantidade suficiente para que o direito ao brinquedo e o brincar no seja prejudicado dentro da escola. BP — E os pais, como devem agir com as crianas em casa? Sheila — O adulto um dos primeiros brinquedos da criana, podendo ele se comunicar de maneira afetiva e participativa nos momentos das atividades ldicas exercidas pela criana. Com isso, possvel no interromper, mas, sobre tudo, provocar novas oportunidades da criana brincar com segurana e de maneira livre. importante que o adulto, organize seu tempo e demonstre valorizar essa linguagem prpria das crianas, oferecendo espaos, brinquedos, diferentes materiais e o encontro com outras idades, para que por meio da interao as crianas possam exercer diferentes papis, que contribuiro com sua atuao enquanto cidad. BP — At que idade as crianas devem brincar? Como prolongar isso em um mundo de “adultizao” Sheila — Acredito que no s a criana, mas todas as pessoas devem brincar durante toda a vida. O brincar proporciona desenvolvimento integral e contribui de maneira significativa para o aprendizado das crianas nas reas cognitiva, emocional e social e em sua vida posterior, quando adulta. Por isso no devemos sobrecarregar o dia a dia das crianas com atividades que descaracterizem seu papel ou suas atividades prprias da infncia. preciso haver um discernimento entre o tempo da infncia e os compromissos escolhidos pelo adulto. BP — De que maneira a internet no dia-a-dia das crianas tm afetado o comportamento e o tempo de brincar? Sheila — Os recursos miditicos contribuem para o aprendizado e podem responder de forma positiva o desenvolvimento integral da infncia. Porm, o direito ao brincar afetado quando a criana desenvolve uma mesma atividade por um longo perodo de tempo. A internet utiliza-se de recursos atrativos e j construdos, prejudicando a atuao da criana sobre o brincar. J as brincadeiras, auxiliam para que a criana tenha seu tempo de criatividade, participao e interao ampliado e respeitado de forma legitima para seu crescimento. O acesso tecnologia de maneira excessiva prejudica as atividades prprias da criana em qualquer local, a criana sempre far escolhas por meio do que mais lhe ofertado. BP — Que dicas voc d para que a brincadeira seja mantida na famlia? Sheila — Os encontros entre as diferentes idades e a troca de saberes fazem com que as brincadeiras sejam mantidas por muitas geraes. Por isso, necessrio que as famlias garantam momentos de interao e ludicidade em todas as oportunidades que estiverem com as crianas. Resgatando brincadeiras, aproximando- se e buscando entender quais brincadeiras foram inseridas nos espaos para as crianas atualmente e quais precisam ser mantidas.

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